Flávio Campello: a vida é muito preciosa para sermos negligentes

Vida Saudável

Hoje, 17 de novembro, celebra-se o Dia Mundial de Combate ao Câncer de Próstata. No Brasil, a cada ano mais de 60 mil novos casos são diagnosticados e esse é o segundo tipo de câncer que mais mata os homens no país. A detecção precoce é de suma importância para a cura e pode acontecer de várias maneiras. No entanto, 87% dos homens ainda têm receio de fazer os exames e o preconceito segue a impulsionar as tristes estatísticas do câncer de próstata. Confira o depoimento de Flávio Campello, que descobriu o adenocarcinoma em 2014, e o importante alerta que ele faz a todos os homens.

“Eu comecei a fazer aula de natação em 2000, quando ainda morava em Brasília, e peguei gosto pela modalidade. Quando mudei para Florianópolis, quatro anos depois, vi que tinha muita opção de travessia no mar. Em 2005, a academia onde nadava organizou uma turma para disputar a travessia em São Francisco do Sul e decidi participar. Na época estava na categoria 50-54 e havia 28 atletas inscritos nela. Fiz uma excelente prova, terminei em décimo lugar na minha faixa etária e ganhei o troféu que marcou o início da minha paixão pela modalidade. Passei a intensificar os treinos e virei rato de competição. Cheguei a disputar 20 travessias em uma temporada, ficando sempre entre os cinco primeiros da categoria, e tenho 124 competições no total.

Mantive por anos o ritmo intenso de treinamento, que chegava a 3,5km por dia, até que em 2012 tive overtraining e não podia mais ver piscina! Foi preciso mudar de ares, no caso, de clube, para me animar novamente. Passei a treinar no Clube Doze, sob a supervisão do técnico Filipe Muniz Corradini, e estabeleci como meta uma prova que aconteceria na Turquia em 2013, onde obtive excelente resultado.

Por causa da puxada rotina, sempre tive o acompanhamento do endocrinologista Alexandre Hohl, que mantenho até hoje. A cada seis meses fazia novos exames e todo o meu histórico de saúde era devidamente monitorado. E foi em um desses acompanhamentos que me deparei com a realidade que até então parecia muito distante para mim. Em julho de 2014, o exame de PSA – Antígeno Prostático Específico, bastante usado para detectar o câncer de próstata – deu alterado. O índice estava em 7,12 ng/ml, sendo que o normal é até 4 ng/ml. Em dezembro de 2013, por exemplo, o meu PSA marcou 1.01 ng/ml. Levei imediatamente o resultado ao conhecimento do dr. Alexandre, que me mandou refazer o exame e já indicou que eu procurasse com urgência um urologista.

No exame de toque, a próstata estava dilatada, o que para a minha idade é normal, mas lisa e sem nada que indicasse algo fora dos parâmetros. O urologista receitou antibiótico, pois podia ser prostatite, e tomei durante duas semanas. No entanto, após esse período, o exame continuava alterado. O urologia achou prudente fazer a biópsia. No dia 16 de setembro recebi o resultado. Não quis abrir na hora. Esperei chegar em casa para estar ao lado da minha esposa. E, com certeza, será um momento que jamais esquecerei. Era um adenocarcinoma (câncer maligno). Nós dois levamos um grande susto e parecia que o chão havia sumido. Somente quem passa por situação semelhante pode entender a avalanche de sentimentos que nos arrebata.

Um mês depois já estava na sala de cirurgia sendo operado. Para minha sorte, o câncer era do tamanho da ponta de uma caneta. Ele estava encapsulado na próstata, não aparecia na periferia e por isso não foi percebido nos exames de toque. Ou seja, aparentemente estava tudo normal, sem nenhum sintoma, mas o câncer já estava lá.

Eu sempre digo que o primeiro passo para ficar bom é aceitar que se está doente, o segundo é querer ficar bom e o terceiro é buscar apoio médico justamente para ficar bom. Não dá para procrastinar, pois um dia pode significar a metástase. O meu câncer era agressivo e em apenas um mês já estava começando a evoluir para a metástase. Se tivesse deixado para lá, em questão de poucos meses não estaria aqui para contar a minha história.

O apoio da família foi essencial durante todo o processo, assim como a minha fé. Estive amparado por profissionais sensacionais e tive verdadeiras aulas sobre o câncer. Já é cientificamente provado que o câncer de próstata passa de avô para neto. De tio para sobrinho, embora não esteja confirmado pela ciência, sabe-se que a incidência é muito grande, que foi o meu caso. Portanto, o homem tem que ficar atento e não pode perder tempo. Passou dos 40 anos já tem que fazer os exames preventivos.

E aqui faço um importante alerta: é essencial deixar de lado o preconceito com o exame de toque. É muito simples e rápido, longe daquela coisa humilhante que as pessoas que não têm informação imaginam. Por causa desse preconceito estúpido muitos homens acabam morrendo em decorrência do câncer de próstata, o que é lamentável. A cada ano 61 mil novos casos são diagnosticados no país e esse é o segundo tipo de câncer que mais mata os homens no Brasil. E posso garantir: depois que a pessoa vira paciente, a questão do toque é o que menor importância tem. Dois amigos meus descobriram depois de mim o câncer de próstata e não tiveram a mesma sorte. Já eu sigo fazendo exames periódicos e estão todos normais.

Por isso, todos os dias quando acordo, agradeço o fato de estar vivo. Se Deus me deu essa chance, é porque tenho ainda uma missão a cumprir. E quem sabe seja, por meio da minha experiência, alertar outros homens que a vida é preciosa demais para sermos negligentes com a nossa saúde.

Por Flávio Campello, de 62 anos, aposentado e atleta de maratonas aquáticas. Ele voltou a nadar e, agora, com o foco na saúde. O próximo desafio de Flávio será a travessia de 3km em Bombinhas, o Troféu Hélio Ideriha, uma prova festiva em homenagem ao seu amigo Hélio.

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