Fernando Scherer: o lado inesquecível do esporte

Atletas

Hoje celebra-se no Brasil o Dia da Saudade, uma data para recordar momentos saudosos. Há 11 anos fiz a minha despedida das piscinas. Na época estava com 32 anos e já não tinha mais a mesma motivação para treinar e competir em alto nível. No entanto, muitas coisas na minha trajetória esportiva foram inesquecíveis e sou grato por tê-las vivenciado.

Não parei de nadar por desgosto ou raiva do esporte, como acontece com alguns atletas. O fato é que manter o rendimento exige inúmeros sacrifícios e chega o momento em que o cansaço sobrepõe o entusiasmo. Muitos fatores pesaram na minha decisão e foi um passo bem pensado – e da qual não me arrependo. Continuei ligado à natação, mas apoiando outros talentos por meio da Hammerhead, o que me deixa igualmente realizado.

Medalha de bronze nos 50 metros livre na Olimpíada de Atlanta (1996)

Para quem é competidor de ponta, é comum o peso da cobrança acabar ofuscando o lado divertido do esporte. Conheço alguns ex-nadadores que não podem nem mais sentir o cheiro do cloro. Por isso creio que parei na hora certa, ainda com ótimo desempenho e uma carreira consolidada, sem estar completamente saturado. Consigo olhar para trás e sentir saudosismo de inúmeras coisas maravilhosas da minha época de atleta.

Sinto saudade, por exemplo, dos momentos antes dos treinos quando era mais novo e não havia ainda tanta cobrança. Eu e os meus amigos do Clube 12 de Agosto chegávamos mais cedo para brincar, jogar truco e nos divertir. Também lembro da época em que comecei a viajar, primeiro para os estaduais e depois para os Jogos Abertos de Santa Catarina (JASC). Com o decorrer dos anos as viagens evoluíram para pan-americanos, mundiais e Jogos Olímpicos. Recordo a emoção e o orgulho de vestir o uniforme da seleção brasileira. No ambiente competitivo há o estresse e é preciso ter uma forma de compensação. Geralmente fazemos isso junto com os amigos – rindo, jogando baralho, truco e fazendo bagunça. Essa convivência é o que me faz mais falta.

Equipe brasileira celebra o bronze nos 4×100 livre na Olimpíada de Sydney

Também sinto saudade da adrenalina que corria nas veias cada vez que subia no bloco de partida, da ansiedade de bater na borda de chegada, da expectativa se havia ou não conseguido um bom resultado, da torcida gritando o meu nome e me incentivando a cada braçada. Seja representando o clube, o estado ou o Brasil nos tão sonhados mundiais e olimpíadas, somente quem é atleta sabe a emoção de disputar uma prova – seja individual ou em revezamento – tendo a equipe e a torcida vibrando junto, de mãos dadas como um time. E esse lado arrepiante do esporte é o que me deixa mais saudoso.​

Por Fernando Scherer, duas vezes medalhista de bronze nas Olimpíadas de Atlanta (1996) e Sydney (2000), detentor de sete ouros em pan-americanos, duas vezes campeão dos Jogos Universitários Mundiais, quatro vezes medalhista de ouro em mundiais e recordista no revezamento 4×100 metros livre.

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