Ana Scherer: amor para que eu pudesse voar longe

Atletas

Sempre achei bacana que a minha mãe tinha pendurado em seu closet um banner com o poema “Filhos” do grande poeta libanês-americano Khalil Gibran. Esse poema discorre sobre a relação dos pais com os filhos e filhas e, logo em seu primeiro verso, alerta os pais para a dura realidade de que “Teus filhos não são teus filhos. São os filhos e filhas da ânsia da vida por si mesma”. O poema segue exaltando a individualidade dos filhos/filhas e declara que o dever dos pais é, acima de tudo, respeitar e honrar essa individualidade.

Penso que não deve ter sido fácil para minha mãe apoiar sua filha de 16 anos a seguir seu sonho de se tornar uma nadadora de calibre mundial tendo que pagar o preço de vê-la saindo de casa com tão tenra idade. Imagino que, muitas vezes, ela tenha lido esse poema para lembrar-se do seu comprometimento com a minha individualidade. Essa liberdade de perseguir nossos sonhos foi o maior presente que ela deu aos seus filhos e filhas.

Assim como a minha mãe, a minha sogra também viu seus filhos saírem de casa muito cedo com o mesmo intuito de perseguirem seus sonhos esportivos. Imagino que ela também tenha sofrido em vê-los longe, mas se enchia de orgulho quando eles saíam vitoriosos de uma competição.

Nesse Dia das Mães, reflito sobre os últimos versos do poema que dizem:

“Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas.
O arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a sua força
para que suas flechas se projetem, rápidas e para longe.
Que vosso encurvamento na mão do arqueiro seja vossa alegria:
Pois assim como ele ama a flecha que voa, ama também o arco que permanece estável”.

Esses versos são para mim uma sinopse do que é ser mãe: um eterno estado de flexibilidade para atender às necessidades dos filhos e às suas próprias, que estão quase sempre em lados opostos. Agradeço a minha mãe e a minha sogra por terem sido nossos arcos e por terem curvado-se com uma flexibilidade imensa para que pudéssemos voar mais longe.

Por Ana Scherer, sócia da Hammerhead,  detentora de inúmeros títulos nacionais e sul-americanos, entre eles, a medalha de prata no Pan-americano de Cuba (1991) e o prestigioso título do All-American pela Arizona State University. 

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